Apontamentos sobre beleza e bondade
Apontamentos sobre beleza e bondade
A beleza humana é mais alvo de admiração do que de reflexão. Ao nos depararmos com alguém bonito, três ideias costumam vir à mente: saúde, merecimento ou bênção celestial, a esta última geralmente se ligando a ideia de bondade. Tudo isso é muito questionável, ao passo que o critério histórico é quase inquestionável (e que guarda certa relação com nossos mecanismos de sobrevivência). Sharon Stone numa tribo africana antiga seria razão de susto, talvez motivasse um assassinato. O mais belo entre os hotentotes, na Europa barroca era motivo de chiste.
Saúde e beleza têm ligações óbvias. Assim escolhemos o peixe na feira. Mas o blush vermelho simula com perfeição as bochechas rosadas de um organismo bem vascularizado. Ou uma inflamação cutânea pode parecer, ao leigo, saúde. Mas no geral, cabelos íntegros, olhos vivos, postura endireitada, musculatura pujante, pele macia, costumam ser indicativos de saúde e beleza simultaneamente. Cosméticos e cirurgias replicam tudo ou quase tudo.
O aspecto do merecimento vincula-se, não raro, ao critério da bênção celestial – é uma via de mão dupla. A pessoa atlética goza de boa apresentação pois pratica atividades, faz por merecer o ter um corpo energizado, capaz e esbelto. Na outra via, empregamos o raciocínio metafísico para supor que a pessoa bela merece algum favor do céu. Daí para a ideia de bênção celestial, é um pulo. Não foram poucos os casos de “atletas” a infartarem por uso de anabolizantes. Ou mulheres-modelo com problemas nutricionais.
A história, no entanto, é cheia de exemplos de que nossos mecanismos cerebrais e morais a respeito da beleza falham miseravelmente. Há pessoas muito belas e de caráter altamente duvidoso. Para não dizer dos tantos genocidas mecanicamente atléticos. Há pessoas sem encanto nenhum canonizadas. Algum feitiço endócrino faz a gente esquecer que as mais mortais víboras são belíssimas. E esquecemos que o ar que nos mantém de pé é invisível, nem belo, nem feio, apenas vital.
Temos outro fato: boa parte das pessoas continua acreditando nos três critérios que listamos, embora não tenham consistência e sejam ilusórios. Sobre as bênçãos celestiais, não temos nem como contestar nem como afirmar. É dogma.
Então, temos três verdades: Saúde e beleza não se correspondem. Beleza e bondade tampouco. E a última, muita gente acredita nisso.
A próxima grande revolução no mundo do marketing será a reconciliação da ética com a estética. Não virá através de máquinas nem dispositivos digitais e suas fantasmagorias, mas sim quando houver preponderância dos feitos nobres das pessoas para que sejam promovidas como ídolos, do contrário, nos encontramos em situação mais precária do que um idólatra que presta honras a monstros esculpidos em pedra, isto é, distanciados da vida e do que faz viver.
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