Fraturou-se o metatarso...dilemas de cristão e o meu jantar com isso?
Fraturou-se o
metatarso...dilemas de cristão e o meu jantar com isso?
Demorei uma semana para me dar conta de que deveria buscar o quinto livro após Paulo. Fraturou-se o metatarso, numa queda boba, sozinho. “Meta” é que está “além” e Paulo, como todos sabem, era de Tarso. Fraturei o quinto, logo, deveria buscar o quinto livro depois de Paulo. Que é justamente o de Pedro.
Nos primeiros dias da fratura, oscilava entre entender o fato como maldição ou bênção. Se doía um pouco, parecia um grande prêmio poder ficar duas semanas em casa. É o que mais gosto de fazer, embora haja um tipo de armadilha rondando nossa cabeça como quem diz “nem pense em se refugiar no seu lar”. Cheguei a pensar no livro de Romanos, no livro de Isaías, que têm me orientado há duas décadas, em minhas vitórias sobre a carne e nos meus momentos mais desgostosos de mim mesmo, geralmente depois de um hambúrguer que custa uma hora de trabalho. A Sé teria fraturado o objetivo de Paulo? Talvez não...talvez sim...
Pedro traz uma resposta à questão que venho me pondo há pelo menos uma década. Ninguém questiona que o mundo seja injusto. Vemos torturadores, homens cruéis, que impõem a miséria, a dor e o sofrimento até mesmo a criancinhas, serem felizes. Por outro lado, vemos gente tão cumpridora dos deveres padecendo, doentes, pobres, sem esperança. O livro de Jó e o Salmos me traziam essa certeza de que o mundo não é justo. Mas o livro de Pedro leva a questão a outro patamar: a justiça divina. Se o homem bom custa a se salvar, que dirá o ímpio? E eu fui ímpio muitas vezes. Quando me neguei a contratar alguém para me ajudar, e assumi o serviço todo sozinho, de olho na bolsa gorda do fim do mês, isso me rendeu problemas de coluna. Quando julgava que tudo no mundo se resumia a não comer carne, ignorava que há brancos que se recusam a dar um prato de milho a um negro, que eles mesmos não recusam sequer a um porco. Ao passo que há gente que oferece banquetes a qualquer um, independente de sua raça. É uma questão complexa.
Mas quando Pedro diz que a carne é como a erva, tem duplo sentido: a erva alimenta tanto quanto a carne, por outro lado, tudo está fadado a desaparecer. O livro insiste muito que a glória é passageira como a erva. Ou seja, como tanto insistiram os reformistas, nossa dignidade é um caminho tortuoso quando comparada à bondade de nosso pai celeste. Tiago emplaca uma mensagem imortal: fé sem obra de nada vale mas quando pensamos bem, tudo passará, e aí talvez a resposta esteja na sabedoria budista e seus gumes tão afiados: tentemos fazer tudo ser indolor. Se é para saborear uma costela, que o animal não sofra. Podemos encontrar paz maior, é verdade, se formos como crianças, essas que merecem o reino de deus desde sempre, ou seja, se não tivermos a malícia e o apetite refinado do adulto. Mas uma vez que o mundo está degenerado, podemos nos inspirar no sábio, que dizia que “tudo é ilusão” e que “comer e beber” é o melhor que podemos fazer. É evidente que uma vida de excessos cobrará de cada um de nós alto preço.
Ler a bíblia é encarar o fato de que, para Deus, todos os viventes são iguais em dignidade, embora o apóstolo faça uma gradação de seres, mais e menos complexos, mais e menos legais portanto, de serem postos à mesa. Fico com Platão: ninguém erra por maldade. Os piores tiranos, assassinos, não raro apresentam belas e sofisticadas razões para seus crimes. Mas hoje estou plenamente convencido de que Deus nos quer felizes. E quem já esteve no campo, sabe, a pecuária torna a vida muito mais fácil e prática. Sem dizer que criam-se ciclos de aproveitamento dos recursos, algo tão importante. O milho que poderia ir para o lixo, engorda a tilápia, por exemplo. Num mundo altamente complexo, a saída para a fome poderia até ser o vegetarianismo. Mas isso só num mundo em que todos se vissem como iguais. No sistema-mundo que temos hoje, os famintos recebem remédios e rações porque existe uma enorme maquinaria que consome fortunas para manter seus aparatos – não raro brancos. No dia-a-dia, o franguinho no quintal é uma facilidade tremenda. Sem dizer que comer queijo demais dá gordura no fígado. Experiência própria.
Outra passagem importante é aquela que diz: “o que mata não é o que entra pela boca e sim o que sai dela”. Nesse momento turbulento em que a ecologia impõe grandes desafios, nosso “sim” à vida pode significar horizontes muito diferentes daqueles para os quais fomos treinados. Resumindo, “quem faz, faz por Deus, e quem não faz, por Deus não faz”.
Lucas Furió tentar achar solução para os seus problemas e do mundo também

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